O que nós, hoje, devemos às comissárias de ontem?

Foto: British Overseas Airways Corporation

Dia desses, enquanto lia sobre o caso Aeroflot, em que centenas de comissários foram punidos por não atenderem mais a um padrão estético imposto pela companhia, não conseguia evitar a conexão entre a notícia e um texto recente da escritora e feminista Gloria Steinem. How Female Flight Attendants Fought Sexism in the Skies é um recorte do livro My Life on the Road, lançado em 2015, e conta sobre como, para Steinem, as comissárias das décadas de 60 e 70 protagonizaram uma revolução importante para a categoria.

Steinem se tornou uma passageira frequente já naquela época, e o fato de os voos serem tomados por homens fez com que ela se aproximasse das comissárias justamente porque, como mulheres, elas compartilhavam uma mesma condição quando estavam a bordo: a sensação de não pertencimento. Ela conta que tão logo os homens de negócios se tornaram o ganha-pão das companhias aéreas, as comissárias de bordo passaram a ser encaradas quase exclusivamente como adereços que deviam atender a diversas exigências.

Ainda que dominassem técnicas de primeiros socorros, emergência e sobrevivência, naquele momento tudo passou a girar em torno da aparência. Elas tinham de ser altas, bonitas, jovens e solteiras. O peso era rigorosamente controlado e o ponteiro da balança, bem como a idade, era determinante para o futuro de cada uma. Aos trinta e poucos, já eram descartadas de suas funções. Ou se ousassem se casar. Ter filhos, então, era impensável, tanto porque as companhias não permitiam quanto por conta do ritmo de trabalho. Em alguns casos, a escala era tão puxada e desgastante que os contratos não passavam de um ano e meio de duração. Os uniformes não satisfaziam às suas necessidades, mas às expectativas masculinas, e até as plaquetas nominais eram sexistas, pois a nomenclatura Ms. explicitava que não eram casadas.

Da estigmatização à conquista de direitos

Talvez eu não seja capaz de imaginar o tamanho da privação e da humilhação a que essas mulheres eram submetidas, mas cada vez entendo melhor como o surgimento da aeromoça como ser estigmatizado e objeto de desejo é fruto de práticas que desumanizavam as pessoas que existiam por trás do uniforme de voo. Isso me faz refletir e valorizar a condição que eu mesmo usufrui quando voava e que meus ex-colegas conservam ainda hoje.

“Eu era testemunha do que aquelas mulheres enfrentavam. Conversei com tantas delas que precisava me policiar para não usar a primeira pessoa do plural quando me referia à sua luta.”

Steinem não era uma delas, mas compartilhava de suas angústias e necessidades a ponto de, quarenta anos atrás, sentir como se também fossem suas as primeiras conquistas da luta feminina na aviação. Num relato emocionante, ela conta como as mulheres daquela época quebraram estigmas, se libertaram da condição que lhes havia sido imposta e conquistaram sozinhas direitos que hoje são básicos para aeronautas do mundo todo.

É por isso que devemos a elas (e aos nossos colegas das gerações anteriores em cada país e cada companhia, é claro), mais que a conquista das tripulações mistas, dos quartos individuais nos pernoites, das opções menos sexistas dos uniformes e da maior igualdade de direitos — coisas que até hoje também beneficiam imensamente os homens — , a honra de manter essa história viva, lutar para garantir que nenhum dos erros do passado se repita e que nenhum direito seja perdido, como no caso Aeroflot, na Rússia.

Leia, em inglês, trecho do livro no site da revista Condé Nast Traveler.

Profissão Comissário é uma seção do blog Voando numa boa que reúne conteúdo específico para profissionais da aviação.

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Ex-comissário, hoje redator freelancer e estudante de Letras.

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