Por que ignoram nossas instruções de segurança?

Foto: ABC News

Se você acompanha o noticiário sobre aviação, já deve ter reparado como têm se tornado comuns os casos em que, mesmo numa situação de emergência, muitos passageiros desrespeitam as instruções dos comissários. São pessoas que, seja por conta das bagagens de mão ou até pelo instinto de registrar o momento em foto ou vídeo, atrasam evacuações de emergência e prolongam a exposição delas e de outras pessoas ao risco, contrariando as ordens da tripulação para que deixem tudo para trás e saiam da aeronave com agilidade.

Para nós, comissários, é difícil entender esse comportamento. Por que, diante de uma cabine tomada por fumaça tóxica, por exemplo, as pessoas não têm reagido como esperamos às nossas vozes de comando e à evidente necessidade de deixar o avião? Por que numa situação dessas, potencialmente perigosa, elas descem os slides com bagagens penduradas nos braços e smartphones em punho, filmando cada segundo da emergência? Pânico, talvez?

Comportamento dissociativo

Como somos treinados para responder com rapidez a inúmeras situações de emergência, ou seja, como estejamos condicionados a perceber o risco dessas situações e manter o alerta situacional em níveis sempre elevados, é frustrante que, mesmo diante de evidências muito claras, as pessoas ainda desrespeitem as nossas instruções com tanta frequência. Então, meses atrás, quando pesquisava sobre um incidente com um Boeing 777 da British Airways para outro artigo, encontrei o parecer de Chris Cocking, um psicólogo norte-americano que me fez refletir sobre esse padrão de comportamento.

Em resposta às especulações de que possivelmente a atitude dos passageiros tinha relação com o pânico de estarem numa situação de vida ou morte, ele disse (em tradução livre):

“Atrasar a sua saída e a de outros passageiros não é exatamente o melhor a fazer quando se está num avião em chamas, mas eu tampouco relacionaria essa atitude à ideia de pânico. Isto porque a concepção clássica de pânico implicaria o contrário, ou seja, cegas pela situação, as pessoas correriam para a saída mais próxima totalmente despreocupadas com os seus pertences e com quem estivesse pelo caminho — e esse não parece ter sido o caso [no voo BA2276]. Portanto, em vez de dizer que foram ‘tomados pelo pânico’, eu diria que os passageiros que recuperaram seus pertences de mão antes de deixar o avião estavam, na verdade, apresentando um comportamento dissociativo, muitas vezes observado em pessoas que, ao enfrentar uma emergência, agem desse modo como que acionando um mecanismo que as ajuda a ignorarem a seriedade da situação.”

Faz todo o sentido. Mais que isso, a fala de Cocking convida à reflexão sobre os procedimentos de resposta a emergências que usamos hoje e abre uma discussão sobre como lidar com um comportamento que tem exposto as pessoas ao perigo.

Solução passa por outras áreas do conhecimento

Por um lado, há quem defenda que os bagageiros sejam automaticamente bloqueados no caso de uma emergência, o que evitaria que as pessoas perdessem tempo tentando recuperar suas bagagens de mão. Por outro, há quem seja partidário da ideia de limitar ainda mais o que os passageiros podem levar a bordo como bagagem de mão. Infelizmente, são soluções que esbarram em questões financeiras, tecnológicas e de regulamentação internacional e que, portanto, têm pouca chance de sair do papel.

Talvez, o caminho mais barato e eficaz seja rediscutir os procedimentos atuais de maneira interdisciplinar, com a participação de profissionais de outras áreas, como a psicologia. Mais que uma questão puramente técnica, esse é um problema comportamental, que demanda uma resposta humanizada e que pode estar, por enquanto, fora das salas de treinamento.

Profissão Comissário é uma seção do blog Voando numa boa que reúne conteúdo específico para profissionais da aviação.

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Ex-comissário, hoje redator freelancer e estudante de Letras.

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